domingo, 27 de julho de 2014

A FONTE DE SEZIM














De Sezim recordo a fonte
Onde a frescura bebia
Ao dobrar aquele monte
Pelo calor de algum dia.

Às vezes tão apressado
A fonte nem sequer via
Mas agora sou lembrado
Da água que ali corria.

Quando muita transbordava
Cobrindo todo o caminho
Era ao colo que passava
Sendo ainda pequenino.

Que saudade dessa hera
A vestir de verde os muros
Remendos de primavera
Dos nossos dias futuros.

Abel da Cunha
Foto: Recanto da Casa de Sezim

sexta-feira, 4 de julho de 2014

AMIGOS















João Elias tinha uma carteira
Ao lado, no Colégio de S. Carlos.
Um veio ter ao Alto, o outro à Beira:
Grandes amigos, sentimentos raros.

Viviam perto com os seus amores:
Raul tinha Angelina e João, Emília.
Em seu redor havia sempre flores
Que partilhavam como de família.

Cantaram ao granito nas pedreiras,
Serraram grossas vigas de eucalipto,
Minaram água, semearam milho,...

O mesmo lume ardia nas lareiras:
No Alto, para acrisolar um livro,
Na Beira, para enternecer um filho.

Abel da Cunha 
Imagens:
A Casa da Beira e a Casa do Alto


KARINGANA
















KARINGANA WA KARINGANA
(Era uma vez…)

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
— Karingana ua karingana!-
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que pode ser.
— Karingana!

José Craveirinha (1922-2003)
Pintura de Roberto Chichorro

terça-feira, 24 de junho de 2014

Ó MEU SÃO JOÃO






SÃO JOÃO SANTO BONITO
Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis de oiro
E o seu cordeirinho ao pé.
(Popular)


SONETILHO

Na cruz do tempo, dia a dia,
A minha vida aonde vai?
Abano a árvore: - a alegria
É um fruto verde que não cai.

Cantam as fontes na espessura
Com vozes de oiro e de cristal,
Que a minha sede em vão procura
De serra em serra e vale em vale.

Sou português e pegureiro
Dum sonho só, um só cordeiro,
O meu cordeiro de São João.

E como os lobos andam danados
Por esses montes e descampados,
Levo-o guardado no coração.

António de Sousa

Imagem acima: 
Murillo, São João Menino

quarta-feira, 21 de maio de 2014

À MÃE














Deste-me leite e mel. Quanta doçura
Havia em teu beijar! O teu regaço
Abria-se em segredos de ternura
E nunca se fechava de cansaço.

O berço pequenino era de pinho
Com lençóis brancos de cambraia fina
Não tinha prata ou oiro mas carinho
Da preciosa fada que destina.

Às vezes eu fugia pra brincar
Nas margens dos teus olhos vigilantes
E logo ouvia a tua voz chamar.

Agora pelas nuvens inconstantes
Meus olhos andam tristes a penar
A ver se me procuras como dantes.

Abel da Cunha

Imagem: Pablo Picasso, Maternidade

terça-feira, 6 de maio de 2014

MÍSTICO MAIO














A música sagrada era tudo
O que o silêncio lhe podia dar;
A natureza amena e o vento mudo
Cobriam-no de sono e de sonhar.

Da flauta a melodia modulava
Por entre giestas fulvas sem ruido;
Era de encanto que transfigurava
O monte verde em Maio reflorido.

De amor divino quase morreria
Se as setas de Diana o atingissem
Num silvo agudo em cálidas feridas!

Mas desse fauno a força nasceria
Em todos os sentidos se viessem
As ninfas mais humanas distraídas!

Abel da Cunha

Imagem (www)
Pál Szinyei Merse, Fauno e Ninfa

domingo, 13 de abril de 2014

AO PORTAL











Partir é sempre adeus sempre saudade.
É leve o lenço de um adeus que acena.
Saudade é de quem chega e nunca sabe
Se o tempo que lhe resta vale a pena.

Ecoam vozes no portal de tábuas
Desfiguradas. Quantos peregrinos
Por terra firme ou por incertas águas
Saíram dele para os seus destinos?!

Passado o cabo dos trabalhos trazem
Florinhas entre as dobras da bagagem
Que a sorte alguma vez deixou cortar.

Para quem parte ou chega as portas são
Esperança enquanto há vida. Depois não.
Depois não há mais tempo a destinar.


Abel da Cunha