terça-feira, 24 de junho de 2014

Ó MEU SÃO JOÃO






SÃO JOÃO SANTO BONITO
Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis de oiro
E o seu cordeirinho ao pé.
(Popular)


SONETILHO

Na cruz do tempo, dia a dia,
A minha vida aonde vai?
Abano a árvore: - a alegria
É um fruto verde que não cai.

Cantam as fontes na espessura
Com vozes de oiro e de cristal,
Que a minha sede em vão procura
De serra em serra e vale em vale.

Sou português e pegureiro
Dum sonho só, um só cordeiro,
O meu cordeiro de São João.

E como os lobos andam danados
Por esses montes e descampados,
Levo-o guardado no coração.

António de Sousa

Imagem acima: 
Murillo, São João Menino

quarta-feira, 21 de maio de 2014

À MÃE














Deste-me leite e mel. Quanta doçura
Havia em teu beijar! O teu regaço
Abria-se em segredos de ternura
E nunca se fechava de cansaço.

O berço pequenino era de pinho
Com lençóis brancos de cambraia fina
Não tinha prata ou oiro mas carinho
Da preciosa fada que destina.

Às vezes eu fugia pra brincar
Nas margens dos teus olhos vigilantes
E logo ouvia a tua voz chamar.

Agora pelas nuvens inconstantes
Meus olhos andam tristes a penar
A ver se me procuras como dantes.

Abel da Cunha

Imagem: Pablo Picasso, Maternidade

terça-feira, 6 de maio de 2014

MÍSTICO MAIO














A música sagrada era tudo
O que o silêncio lhe podia dar;
A natureza amena e o vento mudo
Cobriam-no de sono e de sonhar.

Da flauta a melodia modulava
Por entre giestas fulvas sem ruido;
Era de encanto que transfigurava
O monte verde em Maio reflorido.

De amor divino quase morreria
Se as setas de Diana o atingissem
Num silvo agudo em cálidas feridas!

Mas desse fauno a força nasceria
Em todos os sentidos se viessem
As ninfas mais humanas distraídas!

Abel da Cunha

Imagem (www)
Pál Szinyei Merse, Fauno e Ninfa

domingo, 13 de abril de 2014

AO PORTAL











Partir é sempre adeus sempre saudade.
É leve o lenço de um adeus que acena.
Saudade é de quem chega e nunca sabe
Se o tempo que lhe resta vale a pena.

Ecoam vozes no portal de tábuas
Desfiguradas. Quantos peregrinos
Por terra firme ou por incertas águas
Saíram dele para os seus destinos?!

Passado o cabo dos trabalhos trazem
Florinhas entre as dobras da bagagem
Que a sorte alguma vez deixou cortar.

Para quem parte ou chega as portas são
Esperança enquanto há vida. Depois não.
Depois não há mais tempo a destinar.


Abel da Cunha

sexta-feira, 21 de março de 2014

POESIA












O lírico segredo
Por ninguém desvendado
Na manhã de neblina
Deixá-lo ir assim...
Eu fico livre e calmo,
Sem amor, sem saudade...
O peso das palavras
Evolou-se... Neblina...
E a poesia nasce
Como se fosse música...

Cristovam Pavia
in Poesia

BRANCURA











Fala a musa dos píncaros

Dice ela:
- Baixarei ós vales,
quero ver as cerdeiras
coa airosa pompa das froriñas brancas,
mimos da primavera…

E indócil xenio da montaña altiva,
arrogante, contesta:
- Nin armiños, nin frores, nin escumas;
si fala Dios lles dera
ós seixos albos da fragosa encosta,
e á mística azucena,
acordes, oh insensata, gritariam:
brancura a das folerpas!

A. Noriega Varela
in Do Ermo

domingo, 2 de março de 2014

ADEUS, Ó PORTO

















Adeus, ó Porto adeus; fica-te embora,
Que eu já não posso mais; porque me cansa
Tanto chá, tanto Whist, tanta dança,
E tanta cousa mais que calo agora.

Não era há pouco assim: tudo empiora,
O bem se acaba, o mal raízes lança;
E tem-se feito em tudo tal mudança,
Que até por novo estilo se namora.

Adeus, pois: porque o resto de meus dias
Quero dar às lições dos desenganos
Sempre saudáveis, posto que tardias.

Adeus casas de brinco; adeus enganos;
Chichisbéus, Excelências, Senhorias;
Adeus Ninfas gentis, que fazeis anos.

Paulino António Cabral de Vasconcellos
(Abade de Jazente)