quinta-feira, 9 de abril de 2009

DANÇA DAS HORAS


Hora de prima e outras horas vão
Dançando pelo tempo lentamente
Embalam o fervor adolescente
Num berço sonolento de oração.

A noite acorda ao toque de matinas
Abrindo celas de silêncio denso
No peito ardem corações de incenso
Enchendo o ar de nuvens peregrinas.

Antífonas e salmos alternados
Ressoam pelas góticas arcadas
Num canto chão de mística ansiedade.

Agora - breviários encerrados –
As vozes dos coristas são caladas
Dançando nos vitrais a claridade.

Abel Cunha
Foto: Dali - Persistência da memória



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Salvador Dali
Porque o tempo não cabia nos esquemas fechados
- o tempo, moldura do desassossego -
havia que sacrificar os relógios sobre as árvores
como condenados pendulares por reincidentes heresias,
dar-lhes uma inconsistência gelatinosa, um murro
no cérebro onde o tic-tac fere a calma.


Sabias que bastava um instante de génio ou de loucura,
uma combinação conspirativa de tintas e visões
para que toda a engrenagem pasmasse e sofresse
o hematoma lilás das tuas fúrias.


Porque o tempo não cabia nas amplas categorias
da tua ontologia — lúcido paradigma do absurdo
sentido na lentidão da tela contra a espera.


E assim teus relógios se derramaram
num ritmo mole alheio ao pulso,
incapazes de um tempo inteiro e firme
contra a pressa absurda dos utentes.

Cláudio Lima – 02.02.99

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ARTEFACTOS

É preciso abrir bem os olhos para os prodígios que nos rodeiam.
Pegar nos objectos e descobrir os tesouros que a imaginação supõe.
Realçar-lhes as formas sedutoras da beleza e despertar o desejo de as ter.
Todos somos alquimistas para tentar o ouro da nossa medida.

A Marta faz isso, com naturalidade.
Aproveita artes antigas (origami) e
transforma-se em encantadora de serpentes e de pássaros,
estende correntes de prata e nodifica cordas,
dedilha contas e metais,
criando artefactos que nos ficam bem.

Alumia os materiais adestrados com o génio da sua lâmpada.

Os origamis e espanta-espíritos são deslumbrantes.
Os brincos, os anéis, os colares, as pulseiras, os alfinetes, os medalhões, os ganchos dos cabelos, são excelentes adereços para enfeitar o nosso dia-a-dia de actores no teatro social.
Só quem os não puder usar!

A Marta apresenta os artefactos no seu blogue:
(DKHorse. Blogspot.com)
“People say that I’m a dark horse, because of all that I can do”.

Vale a pena visitar este blogue.

Abel Cunha

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O CORREIO

Para o Manel
Tanto frio vai lá fora.
Tanto frio… Nem me lembro
Se já é Janeiro agora
Ou se ainda é Dezembro.
Batem à porta. – Quem ousa
Vir hoje cantar janeiras?
- São notícias derradeiras
Feitas de verso e de prosa.
Fui abrir. Era o correio.
Entre cartas e papel
Vinham dois livros no meio
Assinados : Manuel.
Não sei como, num repente,
O tempo ficou mais quente.

Abel Cunha30.01.2009

Foto: Rosa Ribeiro - gelo em Pombal de Ansiães.

Nota: Os dois livros, remetidos pelo Manel (Cláudio Lima), eram Outrora Dezembro e Contos Baldios. O poema, abaixo transcrito, é do livro Outrora Dezembro.


Outrora Dezembro

Inventamos Dezembro no aconchego dos mortos
revolvendo uma brasa viva de memória;
a brasa queima as raízes do passado:
belos coletes e fartos bigodes cerzidos
na galeria rútila das cinzas.

Um aroma de musgo entranha-se nas pedras,
as lápides tumulares do nosso sonho.
E assim este Dezembro vai crescendo
em espiral de neve incandescente.

Minha avó tricotando a santidade,
meu avô flauteando estrofes de bronquite
e um brinquedo mágico desfeito
em sádica autópsia, já longe,
quando um trovão rolava entre os meus braços
as fonéticas iras do Senhor. Então orava;
juntava os pecados todos numa lágrima
e jurava.
Jurava ao pé do lume estarrecido.
Eriçado Dezembro fustigava os tectos,
uma pinha benta ardia sob os olhos
pávidos, a espuma do céu caindo aos urros
sobre a fé intimidada dos adultos.

E assim recebi o ósculo do medo
dos lúgubres vendavais. Era Dezembro,
havia manchas de sombra em cada rosto.

Cláudio Lima

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

DESERTO


Perdi o meu relógio no deserto
Que dava horas pelo meridiano
Agora tenho um coração humano
Que bate bate mas não bate certo.

Perdi a bússula que dava o rumo
E os caminhos rectos indicava
Tinha tudo pois tudo encontrava
Agora vejo tudo envolto em fumo…

É noite no deserto. Fui deitar-me
À beira duma duna já desfeita
Coberto pela areia que havia.

É noite no deserto. Vou perder-me
Se alguma estrela não vier perfeita
Alumiar a noite até ser dia.

Abel Cunha

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

PARA A MARTA













A toda a gente, alto, disse um dia:
Chegou a Marta! De tanta alegria,
Encheram-se de lágrimas os olhos,
Como acontece quando nascem filhos.

Todos disseram: seja bem nascida,
Que boa estrela lhe oriente a vida!
(É muito certo aquilo que dizeis:
Nasceu na Lapa, em noite de Reis.)

Quando pequena enchi-a de carinhos,
Andou comigo por breves caminhos.
Levei-a ao colo, se havia lama,
Contei-lhe histórias à beira da cama.

Agora é grande e o mundo é pequeno:
Não há papões ou bruxas com veneno.



Abel Cunha

sábado, 6 de dezembro de 2008

A ROSA E A ROSEIRA













Disse a Rosa p’ra Roseira
No orvalho da manhã:
Faz-me triste esta canseira
De andar sempre louçã.

A Roseira respondeu,
Com voz meiga, carinhosa:
Minha filha, que te deu
Para seres caprichosa?

Não vês o teu jardineiro
Que te traz bem regadinha?
E aquele cavaleiro
Que te quer sua rainha?

Minha mãe, quero ir embora;
Quero alguém que me recorte
E me leve para fora
A tentar a minha sorte.

A Roseira sentiu dor
A picar seu coração.
Recortou a Rosa em flor
E pôs o seu pé no chão.


Abel Cunha

sábado, 20 de setembro de 2008

ACTO DE ABERTURA


Este carrinho de mão, coberto de flores, roubei-o numa praça pública, em Miranda do Douro, para dar uma flor a cada um dos meus amigos. Foi um carjacking perfeito, em pleno dia. Não me perseguiu um só polícia que fosse. Lá ficou na mesma, sereno na sua beleza colorida. Roubei-o com o coração.
 
Abel da Cunha