domingo, 27 de julho de 2014

LIVRO SEXTO











LIVRO SEXTO

Abri hoje o Livro Sexto
Há tanto tempo fechado;
Fechá-lo foi por desleixo,
Por amor fui procurá-lo.

Abel da Cunha
Porto, 02-07-2014


O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro Sexto, 1962

OS TRÊS SANTOS POPULARES














TRÊS ORAÇÕES (QUADRAS)

SANTO ANTÓNIO, a minha bilha
Quebrou todos os pecados;
Será grande maravilha
Nunca mais os ver colados.

SÃO JOÃO, essa fogueira
É um inferno de brincar;
Mas à outra verdadeira
Não me deixes lá chegar.

SÃO PEDRO, na hora incerta
Uma coisa só preciso:
Que tenhas a porta aberta
Para entrar no Paraíso.

Abel Cunha
Imagem:
Santo António (Bordalo Pinheiro)

SENHORAS DO MONTE














Ao Frassino Machado 

Senhoras do Monte
Raminho de abrótegas
Nós vimos de longe
Abri-nos as portas.


Só vamos embora
Lá pela tardinha
Gozaremos hoje
Vossa companhia.


Se fordes servidas
Sentai-vos connosco
Das nossas merendas
Servi-vos com gosto.


Iremos mais leves
De regresso a casa
Que mal se levarmos
Um greiro na asa?


São João Baptista
A todas as horas
Que bem que vos fica
Guardar as Senhoras!

Abel da Cunha

A FONTE DE SEZIM














De Sezim recordo a fonte
Onde a frescura bebia
Ao dobrar aquele monte
Pelo calor de algum dia.

Às vezes tão apressado
A fonte nem sequer via
Mas agora sou lembrado
Da água que ali corria.

Quando muita transbordava
Cobrindo todo o caminho
Era ao colo que passava
Sendo ainda pequenino.

Que saudade dessa hera
A vestir de verde os muros
Remendos de primavera
Dos nossos dias futuros.

Abel da Cunha
Foto: Recanto da Casa de Sezim

sexta-feira, 4 de julho de 2014

AMIGOS















João Elias tinha uma carteira
Ao lado, no Colégio de S. Carlos.
Um veio ter ao Alto, o outro à Beira:
Grandes amigos, sentimentos raros.

Viviam perto com os seus amores:
Raul tinha Angelina e João, Emília.
Em seu redor havia sempre flores
Que partilhavam como de família.

Cantaram ao granito nas pedreiras,
Serraram grossas vigas de eucalipto,
Minaram água, semearam milho,...

O mesmo lume ardia nas lareiras:
No Alto, para acrisolar um livro,
Na Beira, para enternecer um filho.

Abel da Cunha 
Imagens:
A Casa da Beira e a Casa do Alto


KARINGANA
















KARINGANA WA KARINGANA
(Era uma vez…)

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
— Karingana ua karingana!-
é que faz o poeta sentir-se
gente
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que pode ser.
— Karingana!

José Craveirinha (1922-2003)
Pintura de Roberto Chichorro

terça-feira, 24 de junho de 2014

Ó MEU SÃO JOÃO






SÃO JOÃO SANTO BONITO
Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis de oiro
E o seu cordeirinho ao pé.
(Popular)


SONETILHO

Na cruz do tempo, dia a dia,
A minha vida aonde vai?
Abano a árvore: - a alegria
É um fruto verde que não cai.

Cantam as fontes na espessura
Com vozes de oiro e de cristal,
Que a minha sede em vão procura
De serra em serra e vale em vale.

Sou português e pegureiro
Dum sonho só, um só cordeiro,
O meu cordeiro de São João.

E como os lobos andam danados
Por esses montes e descampados,
Levo-o guardado no coração.

António de Sousa

Imagem acima: 
Murillo, São João Menino