quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
RETALHOS
Antoni Tàpies
(1923 - 2012)
Retalhos incolores de uma peça
que sempre foi usada desmedida;
roídos pelo tempo e pela traça
retalhos são pedaços de uma vida.
São cordas que partiram da viola
sem nunca afinar pelo meu canto;
são rolas torturadas na gaiola
donde fugiram lívidas de espanto.
São fios de uma estranha narrativa
que não pude assinar de não ser minha
pecando folha a folha por defeito.
Só por excesso escrevo à luz do dia
de própria mão com tinta genuina
e nem assim o texto sai perfeito.
Abel da Cunha
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
SCHERZO
Hesíodo e a Musa
Gustave Moreau
Quando, ainda jovem, comecei
a submeter-me à disciplina das Musas,
uma delas tomou-me pela mão
e, depois, todo aquele dia
andei com ela às voltas
a ver a oficina.
Mostrou-me, uma a uma,
as ferramentas da arte
e os diversos usos
a que cada uma delas
se ajusta no trabalho
da prosa e da poesia.
Eu olhava e perguntava:
Musa, onde está a lima? Disse a Deusa:
a lima gastou-se; agora passamos sem ela.
E eu acrescentei: mas, se ela está gasta,
não é preciso substituí-la?
Respondeu-me: é preciso substituí-la, mas não temos tempo.
Giacomo Leopardi
Canto XXXVI - Trad. Albano Martins
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
EVERMORE (Para Florbela)

Ao ler um dia versos de Florbela,
entrou na minha sala uma andorinha;
trazia o peito branco como ela,
e, como ela, asas negras tinha.
Não era o corvo no umbral da porta,
dizendo "nunca mais" - o seu refrão -
ao jovem que chorava a noiva morta,
a quem tivera entregue o coração.
Brilhava nela o sol da primavera
com sua claridade branda e pura.
Dizia "sempre mais", ficando à espera
que terminasse o encanto da leitura.
Depois esvoaçou, tomou alento,
e foi perdidamente com o vento.
Abel da Cunha
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
CORAÇÃO
Rosa Ramalho
Cristo em terracota
Preguei numa moldura o coração
e pendurei-o na parede. Ao lado,
um Cristo em terracota. Devoção
de alguém que ali o pôs crucificado.
Mas não ganhei com isso a remissão
das penas que trazia do passado.
O peito ficou oco, e a razão
com um discurso frio e transtornado.
Retive o coração no seu lugar.
Sei que tem erros, mágoas no sentir,
como tem a razão no seu pensar.
Chego à janela, abro e vejo rosas.
E o Cristo em terracota a refulgir
com cinco chagas rubras preciosas.
Abel da Cunha
terça-feira, 23 de outubro de 2012
PRESÉPIO
Presépio
Machado de Castro
Sinto nas mãos o musgo do presépio
que levantei no átrio do Convento;
de São Francisco imitei o afecto
ao celebrar o santo nascimento.
Dei muitos passos pelo monte acima
colhendo tufos verdes sem descanso;
cantava no moinho a pucarinha
enquanto ao fundo ia o Sizandro.
Não tive mais no tempo igual cuidado.
Hoje encontrei pedaços desse barro
que recriou perfeito o auto mudo.
Tirei do pó a vaca e as ovelhas,
pastores, anjos, magos e as estrelas.
Mas onde o sonho que animava tudo?
Abel da Cunha
domingo, 21 de outubro de 2012
OS GATOS

Manuel António Pina
Sabugal 1943 - Porto 2012
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
Manuel António Pina
in Como se desenha uma casa
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
AMÁLIA

Amália
Lisboa, 1920-1999
no barco negro em que vogaste
pela fímbria do mar da tua voz
abriste uma vela e desfraldaste
a saudade toda que há em nós.
deste-nos, em fado, essa tristeza
feita só de sombras e ternura,
onde morava o espinho da incerteza,
cravado na seda da amargura.
de olhos fechados foi que procuraste
o acorde final, aquele que não mente,
por ser essência eterna da canção.
uma guitarra ferida nos deixaste
companheira dessa voz gemente,
xaile do teu rebelde coração.
Adalberto Alves
in No Vértice da Noite
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