quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

METÁFORA DA AMBIÇÃO









D.Francisco Manuel de Melo
Lisboa, 1608-1666


Vivia aquele freixo no alto monte,
Verde e robusto; apenas o tocava
O brando vento, apenas o deixava
De abraçar pelos pés aquela fonte.

Tão soberbo, despois levanta a fronte,
Como pavão, do bosque donde estava,
Envejoso de ver que o mar cortava
Um pinho que nasceu dele defronte.

Ora saiu da terra e foi navio,
Lutou c'o mar, lutou c'o vento em guerra:
Quedas viu ser o que esperava abraços...

Ei-lo que chora em vão seu desvario.
De longe a vê, chegar deseja à terra:
Não lh'o consente o mar, nem em pedaços!


D. Francisco Manuel de Melo

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

ESTE LADO PARA CIMA









João Luís Barreto Guimarães
Natural do Porto (1967)

6A23742907
MIL ESCUDOS
ch.12
LISBOA, 6 de FEVEREIRO DE 1992

podia jurar que já tive esta nota na
mão gostava mais das de cem (Bocage
sempre era poeta) um de nós nunca
esquecia bigodes e cicatrizes sobre

o seu carão moreno assinando o curto
nome pelo banco de Portugal nomeando
nosso Bocage governador por uns dias.

a nota de mil amanhã será como a
tangerina (há tanto tempo na terrina
caíu na classe dos frutos secos).

vem aí outro dinheiro (aposto: vai
ser azul) guardo esta nota antiga na
caixa da ilusão esta nota é um país
em vias de extinção

João Luís Barreto Guimarães




terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O AFRICANO













Afonso Quinto, o rei dito Africano,
perdeu em Toro a nobre sucessão
do trono de Castela. E desde então
foi renascendo o sonho franciscano.

Não pretendia já um reino humano
de falso amor, ganância, vil traição.
De paz e bem se fez o coração
que sempre em guerra tinha o soberano.

Não desejava vénias clericais
mas hábitos honestos usuais
vivendo mais perfeita a lei divina.

Em Varatojo, ouvia no silêncio
os velhos moinhos a cantar ao vento
e um rumor puro de água cristalina.


Abel da Cunha

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A EXCELENTE SENHORA













Em Santa Clara, abrindo a janela,
podia ver os campos do Mondego.
Entrava um melancólico sossego
enchendo a pequenez da sua cela.

Joana era princesa de Castela,
moeda nupcial de um vão desejo.
Em Santarém, já tinha visto o Tejo
e a mesma solidão morava nela.

Pensava, desfazendo a longa renda,
em reinos e num rei sempre afastado:
onde haverá alguém que compreenda

tanta traição que o mundo tem gerado?
Os reinos todos são história e lenda
e nenhum rei merece ser amado.


Abel da Cunha

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O ROSTO QUE SONHA








José Alberto de Oliveira
Natural de Santo Tirso (1945)


para José Rodrigues

Não se sabe donde
vêm a mão,
o silêncio e a luz.

Com elementos primordiais,

com legendas vivas
do Santo de Assis,

descem e mostram o rosto
que sonha demasias,

demasias de ser e ternura.

Debaixo da mão,
do silêncio e da luz,

resplende e sonha
o primeiro de muitos rostos.


José Alberto de Oliveira

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

QUO VADIS, HOMO?









Frassino Machado
Natural do Porto (1946)


O que cada um de nós bem quer
quem o saberá convictamente?
Turba-se a visão à luz do ter
e o SER evapora-se da mente.

Resta-nos a esp'rança e é bem certo
cada noite gera outra manhã
e até o próprio longe fica perto
na chama que a alma sentirá!

Mas à nossa volta o horizonte
nos estende a triste realidade
desta vida humana sem sentido...

Procuramos algo que desponte
em nós aquele germe de verdade
que afaste de vez o seu gemido!


Frassino Machado
In Janelas da Alma

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RUA DA CONCEIÇÃO


A rua tinha um nome que mostrava
a sua identidade. No granito
da placa havia letras de infinito
num tom azul que só o tempo grava.

O velho cego ainda lá estava
tocando acordeão. Naquele sítio
podia ouvir-se o fado num registo
que de tão triste quase magoava.

Deitei moedas de ouro no chapéu
do pobre. Então atravessei a vau
a rua como um rio de água dura.

Bati à porta mas ninguém abriu.
Apenas o silêncio me sorriu
sem revelar a sua formosura.

Abel da Cunha