sábado, 29 de agosto de 2009

SOMBRA DAS HORAS


O sol já descendente rasga o véu da tarde
Deixando ver a sombra que define a altura
Do corpo prolongado que no chão se perde.
Em cinza se dilui o esboço da figura…

E posso me reconhecer nessa visão
Que vem desde o alvor do dia lentamente
Vestida de silêncio angústia e solidão
Crescendo hora a hora muda e persistente…

É um ressentimento verde cor de pinho
Que dorme nos meus braços - terno abandono -
Enquanto a luz solar prossegue o seu caminho
Nesta estação deitada e morna do Outono.

Não há na vida nada mais que me deleite
Quando essa sombra ao longe vai beijar a noite.


Abel da Cunha
Foto: Marta Cunha

quinta-feira, 23 de julho de 2009

MEIO-DIA




Meio-dia. Doze badaladas
Como doze labaredas dão.
Dão o tempo ao lento coração
Numa dúzia de horas magoadas.

Meio-dia. É meio do verão.
Não há sombras frescas nas estradas
Pela aldeia as casas são fechadas
E nas ruas mora a solidão.

Meio-dia. Rangem os insectos.
Os amantes com os membros lassos
Suspendem o ritmo dos abraços
Na ternura expressa dos afectos.

Meio-dia. O sangue arde nas veias
A sonhar nas ondas das sereias.

Abel Cunha
Foto: Abel Cunha - Flor de cacto

quinta-feira, 9 de abril de 2009

DANÇA DAS HORAS


Hora de prima e outras horas vão
Dançando pelo tempo lentamente
Embalam o fervor adolescente
Num berço sonolento de oração.

A noite acorda ao toque de matinas
Abrindo celas de silêncio denso
No peito ardem corações de incenso
Enchendo o ar de nuvens peregrinas.

Antífonas e salmos alternados
Ressoam pelas góticas arcadas
Num canto chão de mística ansiedade.

Agora - breviários encerrados –
As vozes dos coristas são caladas
Dançando nos vitrais a claridade.

Abel Cunha
Foto: Dali - Persistência da memória



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Salvador Dali
Porque o tempo não cabia nos esquemas fechados
- o tempo, moldura do desassossego -
havia que sacrificar os relógios sobre as árvores
como condenados pendulares por reincidentes heresias,
dar-lhes uma inconsistência gelatinosa, um murro
no cérebro onde o tic-tac fere a calma.


Sabias que bastava um instante de génio ou de loucura,
uma combinação conspirativa de tintas e visões
para que toda a engrenagem pasmasse e sofresse
o hematoma lilás das tuas fúrias.


Porque o tempo não cabia nas amplas categorias
da tua ontologia — lúcido paradigma do absurdo
sentido na lentidão da tela contra a espera.


E assim teus relógios se derramaram
num ritmo mole alheio ao pulso,
incapazes de um tempo inteiro e firme
contra a pressa absurda dos utentes.

Cláudio Lima – 02.02.99

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ARTEFACTOS

É preciso abrir bem os olhos para os prodígios que nos rodeiam.
Pegar nos objectos e descobrir os tesouros que a imaginação supõe.
Realçar-lhes as formas sedutoras da beleza e despertar o desejo de as ter.
Todos somos alquimistas para tentar o ouro da nossa medida.

A Marta faz isso, com naturalidade.
Aproveita artes antigas (origami) e
transforma-se em encantadora de serpentes e de pássaros,
estende correntes de prata e nodifica cordas,
dedilha contas e metais,
criando artefactos que nos ficam bem.

Alumia os materiais adestrados com o génio da sua lâmpada.

Os origamis e espanta-espíritos são deslumbrantes.
Os brincos, os anéis, os colares, as pulseiras, os alfinetes, os medalhões, os ganchos dos cabelos, são excelentes adereços para enfeitar o nosso dia-a-dia de actores no teatro social.
Só quem os não puder usar!

A Marta apresenta os artefactos no seu blogue:
(DKHorse. Blogspot.com)
“People say that I’m a dark horse, because of all that I can do”.

Vale a pena visitar este blogue.

Abel Cunha

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O CORREIO

Para o Manel
Tanto frio vai lá fora.
Tanto frio… Nem me lembro
Se já é Janeiro agora
Ou se ainda é Dezembro.
Batem à porta. – Quem ousa
Vir hoje cantar janeiras?
- São notícias derradeiras
Feitas de verso e de prosa.
Fui abrir. Era o correio.
Entre cartas e papel
Vinham dois livros no meio
Assinados : Manuel.
Não sei como, num repente,
O tempo ficou mais quente.

Abel Cunha30.01.2009

Foto: Rosa Ribeiro - gelo em Pombal de Ansiães.

Nota: Os dois livros, remetidos pelo Manel (Cláudio Lima), eram Outrora Dezembro e Contos Baldios. O poema, abaixo transcrito, é do livro Outrora Dezembro.


Outrora Dezembro

Inventamos Dezembro no aconchego dos mortos
revolvendo uma brasa viva de memória;
a brasa queima as raízes do passado:
belos coletes e fartos bigodes cerzidos
na galeria rútila das cinzas.

Um aroma de musgo entranha-se nas pedras,
as lápides tumulares do nosso sonho.
E assim este Dezembro vai crescendo
em espiral de neve incandescente.

Minha avó tricotando a santidade,
meu avô flauteando estrofes de bronquite
e um brinquedo mágico desfeito
em sádica autópsia, já longe,
quando um trovão rolava entre os meus braços
as fonéticas iras do Senhor. Então orava;
juntava os pecados todos numa lágrima
e jurava.
Jurava ao pé do lume estarrecido.
Eriçado Dezembro fustigava os tectos,
uma pinha benta ardia sob os olhos
pávidos, a espuma do céu caindo aos urros
sobre a fé intimidada dos adultos.

E assim recebi o ósculo do medo
dos lúgubres vendavais. Era Dezembro,
havia manchas de sombra em cada rosto.

Cláudio Lima

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

DESERTO


Perdi o meu relógio no deserto
Que dava horas pelo meridiano
Agora tenho um coração humano
Que bate bate mas não bate certo.

Perdi a bússula que dava o rumo
E os caminhos rectos indicava
Tinha tudo pois tudo encontrava
Agora vejo tudo envolto em fumo…

É noite no deserto. Fui deitar-me
À beira duma duna já desfeita
Coberto pela areia que havia.

É noite no deserto. Vou perder-me
Se alguma estrela não vier perfeita
Alumiar a noite até ser dia.

Abel Cunha

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

PARA A MARTA













A toda a gente, alto, disse um dia:
Chegou a Marta! De tanta alegria,
Encheram-se de lágrimas os olhos,
Como acontece quando nascem filhos.

Todos disseram: seja bem nascida,
Que boa estrela lhe oriente a vida!
(É muito certo aquilo que dizeis:
Nasceu na Lapa, em noite de Reis.)

Quando pequena enchi-a de carinhos,
Andou comigo por breves caminhos.
Levei-a ao colo, se havia lama,
Contei-lhe histórias à beira da cama.

Agora é grande e o mundo é pequeno:
Não há papões ou bruxas com veneno.



Abel Cunha